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Livro de prefácios
e comentários

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Wanderlino Arruda

2014


NOTURNO PARA O SERTÃO

           O artista, mesmo sendo uma pessoa mais ou menos como as outras, é um instrumento de Deus na obra da criação. Sempre pensando, sempre sonhando, sempre fazendo, é o arquiteto e o escultor de realidades e belezas. Vive cores e desenhos, movimenta ondas em eternas perspectivas. O artista é o que faz mais que as outras pessoas são capazes de fazer, vislumbra, vê, enxerga muito mais tanto na razão como na emoção. O artista mais do que o alimentar, é o próprio alimento, a sustança da vida e do viver. Dorme e acorda na intensidade do ser e do não-ser. E que bom!

        Assim, fico encantado com o dom do meu colega, companheiro e amigo Itamaury Teles, jovem e vivaz sempre, que respira com intensidade supremos valores que só usos e costumes muito humanos conseguem oferecer. Jornalista ontem – e põe ontem nisso, porque da década de setenta dos velhos tempos d’O Jornal de Montes Claros e do “Diário” – continua repórter hoje, faminto observador de gentes, de bichos e de coisas, daquele jeito bom que Deus organizou e deixa que as pessoas desorganizem.  Passa o tempo, repete o tempo, vem o dia e vem a noite, e tudo traz mais brilho à inteligência e ao poder de observação de Itamaury. Excelente!

      Estou dizendo tudo isso, para dizer do quanto gostei de NOTURNO PARA O SERTÃO, o segundo livro de crônicas de Itamaury Teles, uma descrição do menino-rapaz de Porteirinha, do estudante caxias de Montes Claros, interiorano do norte e moço de capital. Li e reli – acreditando estar lendo com os mesmos ângulos de visão do autor, já que somos crias de uma mesmíssima situação tanto nas cidades de nascimento como na vida estudantil e jornalística desta terra de Darcy Ribeiro e de Waldyr Senna. Redação de jornal como quase família, escola com jeito de vida, pouco, pouquíssimo dinheiro como incentivo aos estudos, era tudo o que Deus quisesse!

      NOTURNO PARA O SERTÃO é fotografia e pintura do que há de mais legítimo na luminosidade do mineirês que falamos e que nos serve como microscópio e telescópio para observação de tudo que acontece conosco e em torno de nós.  Cada página é ao mesmo tempo palco e auditório, texto e pretexto, luz e sombra do que se apresenta bem temperado na gostosura do viver e do amar a vida. Em NORTURNO PARA O SERTÃO, tristezas são passageiras de última viagem e alegrias são elixir para novas aventuras. Nunca o dinheiro se revestiu de importância alguma, aliás muito ao contrário. Valor real é o da inteligência inocente, da esperteza dosada, da simplicidade como norma. Eterna malícia, malícia doce e jovial, em que o prejuízo não prejudica e o lucro não ensoberbece. Tudo na medida certa, com o adocicado de um dedo de prosa!

       Matinês no Cine Fátima, iniciação de jovens do Banco do Brasil em Brejo das Almas, sábias palavras de Zé Amorim, manhãs de sábados no Café Galo, trens do sertão, ensinamentos de Gabrich, confrarias do Skema, cheiro das velhas linotipos da Doutor Santos e da General Carneiro, urubu voando de gravata, tudo, tudo uma laboriosa e inesquecível musicalidade que só o amor à terra pode edificar e colorir. Itamaury é realmente um magnífico cronista e escreve porque sabe escrever e gosta de escrever. Suas linhas têm o fôlego certo que precisam ter, nem mais, nem menos, aquela cronometragem justa dos atletas que passam de mão em mão a tocha das Olimpíadas. Se a crônica é pequena por ser crônica, o livro é um edifício portentoso do que somos e queremos ser.

      Quem é de Minas, leia este livro como quem saboreia um requeijãozinho fresco esquentado com café de rapadura, ou uma marmelada de São João do Paraíso, minha terra, com um doce de leite cremoso das fazendas de Porteirinha. Quem não teve toda a felicidade de nascer em Minas, veja como é bom aprender essa língua treiteira de Itamaury e conviver com ele na mais linda das sabedorias.

       O garoto vai longe!

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